
O “isto”, como quem conhece a história, sabe, é uma espada. E ninguém leva uma espada pra um passeio no parque.
Trabalhar com jogos digitais é visto por muitos como a realização de um sonho: transformar uma paixão de infância em profissão, criando mundos, sistemas, histórias e experiências capazes de marcar outras pessoas.
Esse encantamento é muito importante. Sem ele, grandes clássicos do nosso meio não existiriam.
Mas a indústria mudou, e a forma como falamos sobre carreira em games, apesar do incômodo que isso pode causar, também precisa mudar.
Estive recentemente na Gamescom Latam e em outros eventos do setor e é curioso observar como neles a realidade da nossa indústria é solenemente ignorada. E talvez isso não seja de todo estranho: eventos como esses são na verdade uma espécie de celebração do setor, uma exacerbação das nossas melhores características, precisamos vender o peixe, e ninguém quer falar de coisa ruim em uma festa.
Mas então, em que espaço ou momento devemos falar sobre o que está acontecendo?
Nos últimos anos, a indústria vem passando por um período de forte instabilidade: demissões em massa, redução na oferta de vagas, mudanças nos modelos de contratação para um modelo de gig economy, retorno ao trabalho presencial, crise do Triple A, democratização das ferramentas de desenvolvimento e publicação e o consequente aumento da competição global. Isso sem falar na IA que passou a impactar processos, expectativas sobre produtividade e, claro, empregabilidade.
Isso não significa que os jogos perderam relevância. Pelo contrário. Games continuam sendo uma das linguagens culturais, tecnológicas e econômicas mais importantes do nosso tempo. Eles atravessam entretenimento, educação, arte, saúde, trabalho, cultura pop, entre diversas outras áreas.
Mas é preciso diferenciar mercado consumidor de mercado produtor ou indústria. O consumo de jogos nunca esteve tão grande, tão bem. A indústria é que tem que ser observada com atenção.
Uma questão importante pra mim, que lido com novos profissionais diariamente, é: ingressar numa carreira em games hoje não pode significar apenas “conseguir um emprego em um estúdio” ou “abrir meu próprio estúdio” ou ainda o clássico “fazer meu jogo dos sonhos e ficar rico”. Esses caminhos ainda existem, em maior ou menor grau, mas não podem ser a única promessa, nem o único horizonte.
Criar jogos envolve design, programação, arte, narrativa, som, produção, UX, pesquisa, marketing, tecnologia, trabalho em equipe etc. Poucas áreas combinam tantas dimensões técnicas, criativas e humanas em um mesmo processo.
Por isso, o valor de uma formação em jogos não está apenas no jogo como produto final. Está também no conjunto de competências que ela desenvolve. Um profissional formado nessa área pode atuar com games, mas também com experiências interativas, produtos digitais, serious games, educação, gamificação, simulações, realidade estendida, narrativas interativas, UX e outras tantas áreas da economia criativa e tecnológica.
Quando comecei a escrever esse texto, pensei no impacto que ele poderia ter.
Além de desenvolvedor, eu também sou professor na área de desenvolvimento de jogos. Já ensinei centenas de alunos ao longo de mais de 14 anos de docência. Eu também sou atualmente presidente da associação de desenvolvedores de jogos do meu estado. Eu tenho uma responsabilidade para com tudo que eu falo… Mas também com o que deixo de falar.
O que meus alunos e os desenvolvedores do meu estado vão pensar quando me virem expondo essas questões? Que impacto isso terá neles? Vale a pena fazer isso? Vale a pena mexer com seus sonhos e expectativas?
E, por outro lado, vale a pena não falar? Vale a pena não tratar do momento atual da indústria de maneira clara? Vale a pena manter a idealização da carreira “perfeita” em jogos?
Daí lembrei de um ditado budista que diz algo como: a desilusão é boa. Ela nos coloca mais perto da verdade.
Achei melhor falar.
Falar sobre instabilidade, portanto, não é desestimular novos profissionais. É tratá-los com respeito. Quando ciclos de contratação e demissão se tornam mais comuns, a conversa sobre carreira precisa incluir temas que muitas vezes ficam fora do imaginário romântico da área: portfólio, inglês, networking, contratos, prestação de serviço, empreendedorismo, planejamento financeiro, saúde mental e capacidade de transitar entre diferentes contextos.
A chegada da IA torna essa discussão ainda mais urgente. Profissionais que aprendem apenas a executar tarefas repetitivas ou operar ferramentas específicas tendem a ficar mais vulneráveis. Ferramentas mudam. Pipelines mudam. Processos mudam. Parte do trabalho operacional pode ser acelerada, transformada ou até substituída.
Mas isso não significa que a criatividade humana perdeu valor. Significa que esse valor se desloca. Cada vez mais, será importante formar profissionais capazes de tomar decisões, interpretar contextos, propor soluções, trabalhar em equipe, avaliar qualidade, entender experiência do usuário, construir visão de produto e usar IA de forma crítica.
Diante desse cenário, cursos de jogos, comunidades profissionais e associações de desenvolvedores têm uma responsabilidade ainda maior. Não basta alimentar o sonho. É preciso ajudar a transformá-lo em projeto de carreira.
Isso significa preservar o encantamento pela criação, mas combiná-lo com leitura de mercado. Significa ensinar ferramentas, mas também processos. Significa incentivar a criatividade, mas também discutir produção, sustentabilidade, posicionamento profissional e realidade econômica.
Falar com honestidade sobre a indústria não é um desserviço. O desserviço seria permitir que estudantes e novos profissionais entrassem na área acreditando que paixão, sozinha, basta.
Não basta.
A indústria de games continua sendo um espaço poderoso de criação, inovação e impacto cultural. Ela precisa de novos profissionais. Mas esses profissionais não devem ser formados para uma fantasia. Devem ser formados para a realidade.
A resposta não é um profissional dependente de uma única ferramenta, de uma única função e de um único tipo de empresa. O mercado atual pede repertório, adaptação, especialização com visão de contexto e compreensão de que games fazem parte de um campo maior de experiências digitais e interativas.
Formar profissionais para games continua sendo importante. Talvez mais importante do que nunca. Não para prometer estabilidade onde ela não existe. Não para vender a ideia de que paixão resolve tudo. Mas para preparar pessoas para um mercado real, exigente e em constante transformação.
Tal qual o velho que profere as palavras do título desse artigo, achei prudente alertar os jovens aventureiros sobre os desafios da jornada.
Como diz outro bom ditado: aventura sem percalço, é passeio. E trabalhar com jogos, hoje mais do que nunca, definitivamente não é um passeio. O que se exige dos aventureiros, mais do que um sonho, é coragem.
Leve sua espada.

