Ultimamente, abrir o LinkedIn virou um exercício de paciência. A cada scroll, surge alguém prometendo a fórmula definitiva para “salvar” o seu jogo. São campanhas milagrosas, frameworks infalíveis, threads intermináveis sobre growth e gurus oferecendo cronogramas editoriais como se fossem o caminho da verdade. A ideia é sempre a mesma: com a estratégia certa, qualquer jogo dá certo.
Foi impossível não pensar nisso ao assistir a uma palestra do Jared J. Tan, da Devolver Digital, sobre o sucesso de Cult of the Lamb (que eu assisti recentemente). O que ele faz nessa fala é desmontar quase tudo que esse discurso vende. Não com buzzwords ou fórmulas prontas, mas com uma constatação simples (e incômoda): jogos não viralizam porque tentam viralizar. Eles viralizam porque são memoráveis.
Social media não faz mágica: é amplificador. Tan fala de retenção, dos dois segundos de vida ou morte no TikTok, de reaproveitar assets com inteligência — o que é trailer vira corte, machinima, GIF. Mas o subtexto é claro (e indigesto para os gurus de plantão): nada disso funciona se o jogo não tiver um mundo atraente, uma identidade clara, uma “fantasia” bem definida. Algo que responda, sem esforço, por que alguém passaria horas e horas ali dentro. Nenhum marketing cria isso.
Existe uma diferença brutal entre um jogo que é só mais um perdido na Steam e um jogo que gruda no imaginário. Os que realmente marcam precisam de poucos segundos para criar uma imagem mental, provocar uma emoção – nem que seja estranhamento! Já outros exigem explicação constante, dependem de carrosséis didáticos, textos longos dizendo “do que o jogo se trata” e posts tentando convencer o público de que “vale a pena”. E quando o marketing vira o principal argumento… geralmente é porque o jogo não está se sustentando por conta própria.
Talvez a pergunta mais honesta (e menos vendável, claro) que a indústria deveria se fazer antes de montar qualquer plano de campanha seja esta: esse jogo tem alma? Ele tem uma fantasia clara, sustentada por mecânicas, arte e tom? Ou depende de contexto, legenda e muita boa vontade? Se a resposta for “mais ou menos”, não existe thread no LinkedIn que resolva. O que resolve é edição. Clareza. E coragem de cortar o que não funciona. Porque, no fim, marketing bom não salva jogo fraco. Ele só amplifica quem já tem algo a dizer. E barulho sem conteúdo… a gente já sabe como termina.
