É noite e, depois de uma longa jornada, você entra na taverna do vilarejo à procura de descanso e de se inteirar dos rumores locais. No balcão, o atendente se dirige a você.
— Bom dia, senhor. Gostaria de uma bebida? Talvez um quarto para pernoitar?
— Bom dia, meu bom homem. Uma caneca do seu melhor hidromel, o prato da casa e uma cama num quarto com janela, se possível.
— Pois não, senhor, agora mesmo.
O atendente grita o pedido por cima do ombro pra o cozinheiro no cômodo vizinho.
— Agora, em que mais posso ajudá-lo?
— Pois não. Diga-me: o senhor é corintiano ou flamenguista?
— Err… Perdão senhor… Corintiano… Flamenguista…?
— Sim. Corinthians, Flamengo… Os times…
— Desconheço, senhor. São guildas? Talvez de artesãos?
— Argh! Deixa pra lá. Meu hidromel, sim?
— Ah, claro! Aqui está, senhor.
Conversa estranha, de gente esquisita… Mas por mais esdrúxulo que possa parecer, este tipo de conversa está prestes a se tornar algo que todo jogador vai potencialmente poder experimentar.
O fato é que estamos à beira de uma revolução nos jogos, em especial em suas narrativas e, mais especificamente, nos seus NPCs (Non-Playable Characters ou personagens não controláveis pelo jogador).
Experimentos, mais ou menos bem-sucedidos, com reconhecimento de discurso nos jogos não são novidade. Poder conversar livremente, por meio de texto ou voz, com os personagens do mundo de um jogo é um sonho antigo de Narrative Designers ao redor do mundo.
Nunca foi possível fazê-lo de maneira satisfatória. Mas agora, com o advento dos LLMs e de IAs como o ChatGPT, este sonho está mais perto de se realizar do que nunca.
Faça um experimento simples e peça para uma dessas IAs generativas fingir que é um personagem num RPG e puxe conversa. Você verá de imediato do que estou falando.
A incorporação dessas tecnologias no design das narrativas dos jogos vai representar um salto quântico no modo como as histórias serão contadas e como os jogadores as experimentarão. Será o ápice das narrativas interativas, com um potencial infinito para narrativas emergentes (aquelas que não são roteirizadas pelos designers), para experiências únicas onde cada jogador viverá a história do seu jeito.
Ainda não sabemos até onde isso pode chegar — o céu é o limite —, mas já começamos a entender os desafios.
Experimentos como Herika e iniciativas como o Ghostwriter da Ubisoft, Inworld AI, e Neo NPC, já demonstram a importância e o potencial, mas também as dificuldades, dessa nova forma de contar histórias nos jogos.
No momento, ainda estamos lutando com questões técnicas como latência (demora pra o NPC gerar a resposta), custo de API, coerência do personagem em relação ao lore (a história do mundo), ao gameplay e em relação aos outros personagens, o eterno tom “ChatGePeTesco” destes, entre outros. Isso sem falar nas questões éticas e sociais externas aos jogos, como a precarização do trabalho de roteiristas e dubladores.
O fato é: essa tecnologia veio pra ficar e é uma questão de tempo até que os problemas técnicos sejam resolvidos e possamos ver os primeiros jogos AAA utilizando-a de maneira satisfatória.
Cabe aos profissionais da área estarem atualizados com as tendências e as ferramentas e saberem usá-las a seu favor.
Como sempre, o toque humano, a criatividade, a experiência, o senso crítico e estético, a ética, vão continuar sendo indispensáveis. O Narrative Designer vai ser, mais que do nunca, um maestro ou um diretor da narrativa, quase como o mestre de RPG, criando a premissa da história e moldando e ajustando as personalidades dos personagens, o lore do mundo e como todos esses fatores se relacionam com a progressão e o gameplay. Ao jogador, por sua vez, vai caber a responsabilidade de ser criativo e de entrar no seu personagem, verdadeiramente atuando e contribuindo com os NPCs, num trabalho conjunto entre designer, jogador e IA, na criação de uma história única, totalmente sua (já pararam pra pensar no potencial disso pra os streamers? Pois é…).
O futuro das narrativas interativas, meus amigos, está logo ali, e é assombroso e lindo!
Agora, se me permitem, devo terminar meu hidromel e recolher-me aos meus aposentos. Preciso estar descansado, pois a jornada… Ah! A jornada está apenas começando!


