Avanços em inteligência artificial, especialmente em sistemas autônomos (agentes de IA), podem tornar possível um ataque cibernético em larga escala contra satélites nos próximos dois anos, potencialmente desencadeando colisões em cadeia que tornariam o ambiente orbital inseguro por anos. O alerta foi feito por pesquisadores do centro de cibersegurança CR14, na Estônia, em entrevista ao site Space.com.
Agentes de IA como ameaça orbital
Kristjan Keskküla, chefe do Space Cyber Range do CR14, afirmou que “o problema real agora é que a IA pode agir, tomar decisões, analisar coisas e criar novas explorações”. O especialista alerta que satélites mais antigos, ainda em órbita e operacionais, não possuem sistemas de proteção cibernética, tornando-se “frutos fáceis” para um ataque. Hackers poderiam sequestrar esses dispositivos e transformá-los em armas orbitais, ordenando colisões com outros satélites. “Você só precisa afetar a ação de um satélite para causar problemas”, disse Keskküla.

Redução da barreira técnica
Andrzej Olchawa, engenheiro de cibersegurança espacial da VisionSpace, explicou que os modelos de linguagem de grande escala (LLMs) reduziram drasticamente a barreira para entender operações de satélites. “Interpretar telemetria e estruturas de telecomandos exigia estudo extenso de milhares de páginas técnicas. Hoje, pode-se simplesmente instruir um LLM a gerar analisadores com conhecimento mínimo do setor”, afirmou.
Clémence Poirier, pesquisadora da ETH Zurique, observou que, embora nenhum ataque cibernético com IA contra sistemas espaciais tenha sido registrado até agora, hackers patrocinados por estados já usaram LLMs para pesquisar vulnerabilidades. Em 2024, a OpenAI e a Microsoft revelaram que o ator russo Fancy Bear utilizou LLMs para investigar comunicações por satélite e sistemas de radar. “A IA definitivamente ajuda os atores de ameaças na fase de reconhecimento. O tempo para explorar vulnerabilidades conhecidas foi imensamente reduzido por causa da IA”, disse Poirier.
Cenário de colisão catastrófica
Os pesquisadores temem que uma colisão deliberada possa criar milhares de fragmentos na órbita terrestre baixa (LEO), onde operam a maioria dos satélites, tornando o ambiente orbital inseguro por anos. Nos últimos três anos, cerca de 8.000 satélites foram lançados, e as constelações continuam crescendo. O CR14 já simula esses ataques em ambientes virtuais usando gêmeos digitais, com equipes de atacantes e defensores.

