Dados consolidados em abril de 2026 pela TI Inside e corroborados pela McKinsey apontam que 70% das iniciativas de transformação digital nas empresas fracassam. Para Virgilio Marques dos Santos, PhD em Engenharia pela Unicamp e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, o problema não está, necessariamente, na tecnologia adotada, mas na forma como as organizações conduzem a mudança.

Segundo o especialista, há três ilusões recorrentes que levam ao colapso desses projetos:
- A crença de que tecnologia substitui estratégia de processos;
- O desalinhamento entre incentivos;
- Operação e o uso da transformação digital como um símbolo de modernização, sem mudanças estruturais reais.
A primeira ilusão é acreditar que implementar tecnologia equivale a transformar processos. “O erro mais comum da liderança é sobrepor sistemas modernos a estruturas organizacionais disfuncionais e altamente burocráticas. Nesse cenário, a empresa apenas cria uma burocracia eletrônica. Automatizar uma ineficiência não resolve o problema; apenas aumenta a velocidade com que o desperdício acontece”, afirma Santos.
Para ele, o redesenho institucional precisa vir antes da implementação tecnológica. Sem revisar fluxos, responsabilidades e gargalos operacionais, a digitalização tende apenas a sofisticar problemas antigos.
A segunda ilusão está relacionada aos incentivos internos. Dados da McKinsey mostram que empresas que engajam ativamente os colaboradores durante o processo de mudança têm até oito vezes mais chances de sucesso. Ainda assim, muitas organizações implementam novas ferramentas sem revisar métricas, metas ou formas de avaliação.
“A liderança impõe uma nova ferramenta de cima para baixo, altera completamente a rotina de quem opera a geração de valor, mas mantém as mesmas cobranças e indicadores do modelo anterior. O trabalhador percebe risco operacional e cria mecanismos paralelos para garantir a entrega”, explica.
Segundo Santos, é nesse contexto que surgem as chamadas “planilhas ocultas” e controles informais, que coexistem com sistemas corporativos oficiais.
“O sistema falha porque os incentivos continuam desalinhados. A tecnologia muda, mas a lógica organizacional permanece a mesma”, ressalta.
A terceira ilusão, segundo o gestor, é mais profunda e envolve a própria cultura corporativa. “Transformar uma empresa exige enfrentar conflitos internos, desmontar feudos de poder, admitir vulnerabilidades e atravessar um período temporário de perda de produtividade. Isso exige liderança real”, afirma.
Nesse cenário, a aquisição de grandes soluções tecnológicas pode funcionar como uma espécie de atalho simbólico. “Assinar um contrato milionário com uma big tech gera a sensação imediata de modernização. A compra da tecnologia se transforma em um álibi confortável para evitar o desgaste da gestão da mudança”, diz.
Na avaliação de Santos, a transformação digital só produz resultados sustentáveis quando é tratada como uma mudança organizacional ampla – e não apenas como uma atualização tecnológica. “Compra-se a ilusão da transformação para não ter que pagar o preço do esforço real”, afirma. Sem alinhamento entre cultura, operação e estratégia, a digitalização corre o risco de apenas ampliar ineficiências já existentes sob uma aparência de modernização.
Sobre Virgilio Marques dos Santos
Virgilio Marques dos Santos é PhD em Engenharia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Master Black Belt em Lean Seis Sigma e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, startup sediada no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp. Trabalha há 15 anos com desenvolvimento de carreiras, futuro do trabalho e transformação organizacional. É autor do livro “Partiu Carreira”, TEDx Speaker e palestrante em temas de gestão, inovação e liderança.
FONTE: COMUNIQUESE

