A divulgação dos resultados do PISA 2025 pela OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, no último dia 8 de setembro, traz uma mensagem particularmente relevante para o Brasil: o país continua apresentando um nível de aprendizagem muito distante daquele necessário para sustentar uma economia cada vez mais baseada em conhecimento, tecnologia, inovação, computação quântica e IA (Inteligência Artificial).
O desempenho brasileiro acende alerta para empresas, pois impacta bastante nosso desenvolvimento tecnológico, acarretando sérias consequências presentes e futuras, para a economia. Alerta este, que os empresários brasileiros não podem ignorar. Mas o que é o PISA (do inglês “Programme for International Student Assessment” ou Programa Internacional de Avaliação de Estudantes)? É “o principal estudo comparativo internacional sobre a qualidade da educação no mundo”, sendo realizado a cada três anos, pela OCDE. O estudo avalia estudantes com 15 anos de idade, “faixa etária em que se pressupõe o fim da escolaridade obrigatória na maioria dos países”.
O foco é na avaliação em três competências principais: Leitura, Matemática e Ciências. “Medindo” se os alunos conseguem aplicar o que aprenderam na escola, na resolução de problemas reais do cotidiano, indo além da simples “decoreba” de fórmulas e conteúdo.
Os resultados de 2025, mostram estabilidade do Brasil em relação a 2022 (ano da pesquisa anterior), mas revelam uma grande distância em relação à média da OCDE e um desafio crescente para a formação de profissionais qualificados, em uma “economia dominada por Tecnologia, IA e Inovação”, como escrevi acima. O “desempenho” do Brasil no PISA 2025 revelou deficiências significativas nas competências básicas necessárias para trabalhar e produzir em uma economia cada vez mais digital. Em 2025, participaram mais de “760 mil estudantes de 91 países”. No Brasil, foram avaliados mais de “30.000 estudantes de 1.053 escolas”, representando aproximadamente, 2,2 milhões de jovens de 15 anos.
Desempenho brasileiro permanece distante da média da OCDE
A OCDE considerou os dados brasileiros adequados aos seus padrões de qualidade atuais. O país obteve 408 pontos em Leitura, 377 em Matemática e 409 em Ciências. Em todas as três áreas, o desempenho ficou abaixo da média da OCDE.
Entretanto, o dado mais importante, talvez seja outro: “o resultado brasileiro de 2025 foi praticamente igual ao de 2022” nas três disciplinas. A OCDE também observou que o desempenho permanece relativamente estável desde 2015. Ou seja, o país conseguiu avançar em uma perspectiva de duas décadas, mas enfrenta dificuldades para produzir uma nova aceleração na aprendizagem”.
O resultado não deve ser interpretado simplesmente como fracasso. O Brasil melhorou em relação ao passado, mas, infelizmente, não está avançando na velocidade necessária para acompanhar uma economia mundial, que muda muito mais rápido do que o nosso sistema educacional. Mais preocupante do que a média de pontos, é a distribuição dos estudantes pelos níveis de proficiência. Em Matemática, apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2, contra 65% na média do levantamento da OCDE. O problema se torna ainda mais evidente quando se observa o topo da distribuição: quase nenhum estudante brasileiro chegou aos níveis 5 ou 6 de Matemática, enquanto a média da OCDE foi de 8%. Nesses níveis mais elevados, “os estudantes conseguem modelar situações complexas e selecionar, comparar e avaliar diferentes estratégias de solução de problemas”. Já na Leitura, aproximadamente “49% dos brasileiros alcançaram o nível 2 ou superior”, contra 69% na OCDE. Apenas 1% atingiu nível 5 ou superior, contra 6% na média. Em Ciências, cerca de 48% atingiram pelo menos o nível 2, contra 74% na média da OCDE. Somente 1% chegou aos níveis 5 ou 6, ante 7% na OCDE.
Por estes dados, fica claro que o Brasil possui uma base relativamente pequena de estudantes com competências avançadas, justamente aquelas que tendem a ser mais valorizadas em atividades de alta complexidade, como pesquisa cientifica, engenharia, tecnologia e inovação. É neste ponto que o resultado do PISA 2025 deixa de ser apenas um indicador educacional e passa a ser também um indicador econômico e empresarial. O “problema” chegou nas nossas empresas.
O futuro profissional começa a ser medido hoje
O jovem avaliado pelo PISA em 2025 não é necessariamente o profissional que entrará imediatamente no mercado de trabalho. Entretanto, ele representa parte importante da futura força de trabalho brasileira. Um estudante de 15 anos avaliado em 2025 estará aproximadamente na faixa dos “18 a 20 anos no final desta década”, justamente quando uma parcela significativa estará ingressando ou consolidando, sua entrada no mercado de trabalho. Para as empresas, portanto, os resultados do PISA funcionam como uma espécie de “indicador antecipado da oferta futura de capital humano”. E o diagnóstico é preocupante. Uma empresa pode adquirir máquinas, computadores, softwares e sistemas de IA.
Pode importar tecnologia. Pode contratar consultorias nacionais/internacionais. Pode utilizar até plataformas de treinamento on-line. É só ter capacidade financeira para este tipo de investimento, mas existe um componente que é muito mais difícil de se obter ou mesmo importar: “pessoas capazes de compreender problemas, raciocinar quantitativamente, interpretar informações, aprender rapidamente e transformar conhecimento em soluções”. É exatamente nesse “terreno” que os resultados brasileiros no PISA 2025 preocupam e muito. É importante destacar e evitar, uma interpretação equivocada de que Matemática, Leitura e Ciências são competências restritas à escola. Matemática e Leitura são sim, competências necessárias no “mundo” empresarial.
No ambiente corporativo, a Matemática está presente na análise de dados, estatísticas, precificação, planejamento financeiro, logística, controle de estoque e produção, IA, contabilidade, gestão de riscos e análise de investimentos, só para mencionar algumas aplicações. A Leitura também, deixou de significar simplesmente “saber ler”. Em empresas do “século 21”, profissionais precisam interpretar contratos, relatórios, indicadores, documentação técnica, pesquisas, normas, legislação, especificações de produtos e informações produzidas por sistemas digitais (especialmente, sistemas baseados em IA).
É imprescindível, “saber distinguir informação confiável de informação incorreta”. Essa competência se torna ainda mais importante, diante da evidente expansão do uso da IA nas empresas brasileiras. Em ritmo cada vez mais acelerado. O PISA 2025, aliás, incorporou uma dimensão inédita relacionada à “aprendizagem no mundo digital”, avaliando a “capacidade dos estudantes de resolver problemas utilizando ferramentas computacionais”. Segundo o relatório da OCDE, o desempenho médio dos estudantes brasileiros nessa dimensão, ficou também, abaixo da média do levantamento.
Educação também é uma questão de produtividade empresarial
Com base em todos os dados acima, fica claro que “problema educacional” brasileiro, pode se transformar em um prazo bastante curto, em um “problema de produtividade empresarial”. Empresas que precisam contratar trabalhadores com competências básicas insuficientes, tendem a enfrentar custos adicionais de seleção, treinamento, supervisão e adaptação. Um profissional que não domina adequadamente matemática e interpretação de textos, vai certamente, necessitar de treinamento adicional antes de executar tarefas que, em economias com recursos humanos mais qualificados, seriam realizadas de “forma imediata”.
A falta dessa qualificação básica, aumenta o chamado “custo de formação do trabalhador”. Na prática, uma empresa brasileira poderá precisar gastar mais (tempo e dinheiro), para transformar um jovem recém-contratado em um profissional minimamente produtivo. Esse efeito pode ser particularmente forte, nas pequenas e médias empresas (base de nossa economia), que normalmente possuem menos recursos para manter programas estruturados de treinamento.
A questão se torna ainda mais séria com a IA. A “chegada da IA” poderia, à primeira vista, reduzir o impacto da “deficiência educacional”. Se uma ferramenta de IA consegue escrever, calcular, programar, resumir e analisar dados, alguém poderia concluir que as competências tradicionais perderiam importância. A tendência (e a realidade), entretanto, aponta justamente na direção contrária. Quanto mais poderosa a IA se torna, maior a importância de se ter profissionais capazes de “formular boas perguntas, avaliar respostas, identificar erros, verificar fontes, compreender contexto e tomar decisões”.
A IA pode até produzir uma resposta matemática e textualmente sofisticada, mas um humano precisa saber se aquela resposta faz sentido. Ela pode ainda produzir um programa de computador. Mas alguém precisa avaliar sua arquitetura, segurança, desempenho e adequação ao problema. Pode analisar um contrato, entretanto um humano precisa compreender os riscos jurídicos e empresariais envolvidos. Ela pode até produzir uma estratégia empresarial. Mas um executivo precisa decidir se as premissas utilizadas são claras e razoáveis para serem aplicadas ao negócio. Portanto, a baixa proficiência em competências fundamentais de nossos jovens, pode “reduzir justamente a capacidade da sociedade de aproveitar plenamente a tecnologia de IA”. Acarretando impactos inimagináveis, para o futuro do país, especialmente na economia. Na próxima coluna vou voltar ao tema “PISA 2025”, mas focando o impacto para o setor de TI (Tecnologia da Informação).


