
Em nossa última conversa, falamos sobre a digitalização dos jogos de tabuleiro, formas de jogar online e como era inevitável que essa interação acontecesse. Ainda nesta toada, resolvi trazer outro aspecto de como as ferramentas digitais podem ser, e são, usadas em um entretenimento que é fundamentalmente analógico. Agora, a tecnologia participa do jogo como parte essencial, trazendo uma nova camada de interação com o tabuleiro e com os demais jogadores.
Alquimistas, lançado em 2014 pela Devir, é um jogo de gerenciamento de recursos e dedução lógica no qual os jogadores assumem os papéis de alquimistas experimentando diferentes misturas para criar poções. Dentro do universo dos jogos de tabuleiro, essa premissa assemelha-se mecanicamente a tantos outros títulos, mas Alquimistas apostou no uso de um aplicativo gratuito para gerenciar as ilimitadas combinações de elementos a cada partida. Desse modo, nenhum jogo terá a mesma configuração, aumentando exponencialmente a rejogabilidade do título.

Além disso, ao transferir o processo de gestão das combinações para um aplicativo, o jogo cria um momento lúdico excepcional: o suspense de combinar ingredientes e buscar um resultado. Como será que podemos obter uma Poção de Vitalidade? Será que a combinação de Asas de Corvo e Pernas de Rã é a resposta ou apenas uma perda de tempo?

Em 2015, um aclamado jogo digital ganhou sua versão de mesa. XCOM é uma franquia que possui inúmeros fãs, na qual você gerencia uma agência internacional de defesa contra uma invasão alienígena. Seu sistema de combate tático, progresso de pelotão, gerenciamento de recursos e as inúmeras decisões em tempo real foram fatores determinantes para o sucesso no PC e consoles. No entanto, no tabuleiro, as mecânicas deveriam ser modificadas sem que se perdesse a essência da fonte.

Nesse sentido, X-COM: The Board Game, lançado pela Galápagos Jogos no Brasil, trouxe o uso de aplicativos como ferramenta de jogo de maneira inédita. O app não é opcional, ele é essencial para o progresso da partida, pois rege os eventos e missões que os jogadores deverão enfrentar cooperativamente.
Esses lançamentos geraram debates acalorados em fóruns e grupos de jogadores sobre o uso de tecnologia em uma diversão que, em teoria, deveria ser offline. Alguns defendiam que já há um excesso de digitalização em nossas rotinas e que evitariam jogos dependentes de telas. No entanto, títulos como esses mostraram que o tabuleiro pode absorver ferramentas tecnológicas de maneira inteligente e coerente. Tendo em vista que quase todos possuímos um smartphone ou tablet, utilizar esses recursos para aumentar a imersão ou aliviar a carga de preparação parece um ganho de grande valia para o hobby.
Nos anos seguintes, o uso de aplicativos cresceu consideravelmente, especialmente em títulos narrativos. Isso pode ser observado em Mansions of Madness (Galapagos Jogos) e Imperial Assault(Fantasy Flight Games), nos quais, em suas edições originais, um dos jogadores precisava atuar como o “mestre” ou antagonista. Com a implementação do app, essa função foi passada para a máquina, permitindo que todos os participantes experimentem a descoberta da história simultaneamente.


Outros títulos, como Senhor dos Anéis: Jornadas na Terra-Média e Descent, ambos lançados no Brasil pela Galápagos Jogos, usam o aplicativo para gerir desde a missão (com trilhas sonoras que ampliam a imersão) até o inventário dos personagens ao longo de uma campanha. Outro nicho que se beneficiou foram os jogos de dedução lógica, como Em Busca do Planeta X, lançado pela MeepleBR Jogos, onde o app gera desafios constantes e mantém o jogo atualizado sem custos extras para a distribuidora ou para os jogadores.

Hoje em dia, embora a onda de aplicativos não tenha se tornado uma mecânica onipresente nos grandes títulos da indústria, ela certamente se estabeleceu como um caminho sólido a ser explorado. Essa amálgama entre o digital e o analógico ainda oferece um vasto campo para designers de jogos e desenvolvedores de software criarem experiências híbridas cada vez mais envolventes.
