Sempre que começamos um novo jogo eletrônico, sabemos que iremos encontrar um tutorial de como
aquele mundo funciona. O jogo se inicia com os primeiros passos de sua aventura virtual tomando um
tempo para lhe instruir sobre como interagir com o ambiente ao seu redor, explorar, enfrentar os
desafios e inimigos e garantir que você possa Ɵrar o maior proveito daquela experiência.
De maneira usual, isso acontece sempre de forma progressiva, à medida que você avança no jogo,
novos desafios e usos das habilidades que você conhecia vão sendo expandidos, colocando o jogador
em situações que cada vez mais exigem entendimento das regras ali estabelecidas.
Alguns jogos são reconhecidamente famosos por seus primeiros momentos, usando o tutorial não
apenas como um espaço maçante de aprendizagem nos quais os jogadores querem simplesmente
avançar o mais rápido possível. Na verdade, alguns dos melhores são aqueles que não chamam a
atenção para o fato de serem um tutorial, mas agem como uma extensão orgânica daquela experiência.
Entre alguns exemplos que vêm à cabeça, estão as fases iniciais de MegaMan X, com uma trilha sonora
marcante, esse jogo te coloca no meio da ação e usa isso para reforçar as habilidades básicas do
jogador, sem interromper constantemente para oferecer dicas. O mesmo pode ser dito de jogos como
Portal 2, The Legend of Zelda: Breath of the Wild e outros.

Mas e quando o tutorial é você? Você pularia essa etapa de maneira forçada para iniciar logo o jogo,
talvez ao custo da compreensão e diversão de alguns jogadores, ou você construiria cenários e
hipóteses para que seus convidados compreendam da melhor maneira possível o jogo que está na
mesa, mesmo que isso aumente a duração da parada?
Essa é uma questão que surge quando falamos de jogos de tabuleiro, afinal, dificilmente é possível
realizar um tutorial quando se trata de jogos analógicos.
“A gente aprende jogando!”, foram tantas as vezes que ouvi essa frase antes de começar uma partida
de Twilight Imperium, Mage Knight ou outros tantos jogos que ela já virou sinônimo da impaciência
dos jogadores com o volume de regras que está sendo despejado na cabeça deles. O que todos na
mesa querem é apenas jogar!

Mas sem conhecer minimamente as regras daquele mundo de cartas, dados e marcadores de papelão,
será que é possível se divertir ou competir com aqueles mais experientes?
Durante os meus longos anos nesse hobby, sempre puxei para mim a função de explicador. Costumo
ler todas as regras antes da partida, preparar uma “aula” com a explicação e tentar ser o mais didático
possível, especialmente quando temos novatos.
No entanto, os tutoriais para os jogos de tabuleiro acabam sendo uma avalanche de informações somadas a uma verborragia sobre turnos, regras, exceções e pontos de vitória que não ficam gravados na mente de quem ouve.
Mas será que é possível aprender com alguns dos jogos citados acima e levar para a mesa um tutorial
que ensine e engaje tanto os novatos quanto os veteranos? Quais lições de game design usadas no
ambiente eletrônico podem ser transportadas para os tabuleiros?
Pessoalmente, eu tento criar cenários e situações de jogo durante a explicação, mas também ao longo
da partida, me comportando como aquele NPC que fica lembrando os fundamentos ao jogador. No
entanto, explicar um jogo novo sempre é um desafio para quem explica, há de se ter muita paciência,
empatia e uma capacidade didática incomum de modo a garanƟr que as próximas horas de partida
sejam aproveitadas por todos.
Uma coisa é certa, jogos de tabuleiro contam com a rejogabilidade a seu favor, ou seja, já se espera
que os jogadores voltem para uma nova parƟda após a primeira, carregando mais experiência e
conhecimento das partidas prévias.
De todo modo, cabe àquele que se propõe a explicar pensar com carinho qual a melhor maneira de
fazer esse ato de amizade e generosidade, levando em consideração o grupo ali reunido, a
complexidade do jogo escolhido e, em especial, o tempo disponível. Vale sempre lembrar que a regra
de ouro é a diversão.
Existem lições sobre como sobre isso ajuda a diminuir as barreiras que separam essas artes do entretenimento e podem trazer beneİcios mútuos para as áreas.
Então da próxima vez que você for explicar um jogo, pense com carinho de que maneira engajar seus
jogadores desde a montagem da mesa. Se você esƟver na posição de aprendiz, ouça com atenção e
busque ajudar aquele que dedicou tempo e energia para essa aƟvidade em grupo.
Reza a lenda entre os jogadores de tabuleiro que um dia você poderá simplesmente sentar e jogar, sem
ter que explicar o jogo novamente ou revisar as regras para todos. No entanto, isso parece ser somente
uma lenda.

