A Braskem decidiu avançar com um dos movimentos financeiros mais importantes de sua história. O conselho de administração da companhia aprovou nesta segunda-feira (24) o ajuizamento de um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras.
A medida busca criar um ambiente jurídico mais estável para que a empresa negocie com seus credores e implemente uma nova estrutura para suas dívidas. Segundo a companhia, o processo terá escopo exclusivamente financeiro e não deverá alterar as obrigações assumidas com fornecedores, clientes e demais stakeholders.
O movimento ocorre após meses de negociações com credores e representa uma tentativa de preservar a capacidade operacional da petroquímica enquanto a empresa reorganiza seu passivo.
Uma dívida que supera R$ 50 bilhões
A dimensão do problema financeiro ajuda a explicar a decisão.
No encerramento do segundo trimestre de 2026, a Braskem informou possuir US$ 10,4 bilhões em dívida bruta corporativa e dívida líquida ajustada de aproximadamente US$ 9,5 bilhões. A alavancagem corporativa chegou a 6,74 vezes a dívida líquida sobre o EBITDA.
A companhia também mantém uma carteira relevante de títulos internacionais, incluindo bonds com vencimentos entre 2028 e 2050.
Com a recuperação extrajudicial, a estratégia passa a ser reorganizar essas obrigações sem interromper o funcionamento da companhia.
Braskem teve lucro, mas caixa continua sob pressão
Um dos pontos que tornam o caso particularmente relevante é que a crise financeira acontece mesmo após a empresa apresentar melhora operacional.
No segundo trimestre de 2026, a Braskem registrou EBITDA de US$ 1,043 bilhão, além de lucro líquido de US$ 664 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 3,3 bilhões.
O resultado foi beneficiado pela melhora dos spreads químicos e petroquímicos no mercado internacional.
Apesar disso, a companhia registrou consumo líquido de caixa de aproximadamente US$ 15 milhões no trimestre, principalmente em razão de mudanças no capital de giro e da volatilidade dos preços de matérias-primas.
O contraste mostra o desafio enfrentado pela empresa: melhorar a operação não é suficiente quando o custo da dívida e a estrutura de capital pressionam a geração de caixa.
O problema não começou agora
A deterioração financeira da Braskem vem sendo acompanhada pelo mercado há meses.
Em junho, a companhia buscou proteção judicial contra credores enquanto negociava uma solução para sua estrutura de capital. Em agosto, a Fitch classificou o rating da empresa como RD — Restricted Default, ou inadimplência restrita. A S&P também havia rebaixado a classificação da companhia para D em junho.
A sequência mostra como a pressão sobre a empresa evoluiu:
endividamento elevado → pressão sobre liquidez → negociação com credores → proteção judicial → reestruturação financeira.
Crise também atravessa a operação mexicana
Outro elemento importante da reestruturação está no México.
A Braskem Idesa, joint venture entre a Braskem e o Grupo Idesa, entrou recentemente com pedido de proteção judicial nos Estados Unidos por meio do Chapter 11.
O acordo prevê reduzir a dívida sênior da subsidiária de US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão, uma redução de aproximadamente 36%.
A Braskem também se comprometeu com um aporte total de US$ 476 milhões na operação mexicana.
A companhia brasileira continuará como acionista majoritária da Braskem Idesa após a conclusão da operação.
Por que a Braskem chegou a esse ponto?
A empresa enfrenta uma combinação de fatores.
Entre eles estão a volatilidade dos preços de matérias-primas, margens pressionadas no mercado petroquímico internacional, elevado endividamento e os impactos financeiros associados à operação de sal-gema em Alagoas.
O caso de Maceió também continua representando uma fonte relevante de risco jurídico, financeiro e reputacional para a companhia. Um laudo da Polícia Federal divulgado recentemente estimou em cerca de R$ 40 bilhões o impacto econômico potencial para a União relacionado ao afundamento do solo provocado pela exploração de sal-gema.
Recuperação extrajudicial não significa paralisação
Um ponto importante para fornecedores e clientes é que a recuperação extrajudicial possui escopo delimitado.
A Braskem afirma que o processo está direcionado às suas obrigações financeiras quirografárias e não abrange os compromissos operacionais com fornecedores, clientes e outros stakeholders.
Na prática, a companhia pretende reorganizar sua dívida enquanto mantém suas operações.
Essa diferença é fundamental.
Recuperação extrajudicial não significa que a empresa deixará de produzir ou que suas operações serão automaticamente interrompidas.
O objetivo é utilizar o mecanismo jurídico para reorganizar a relação com determinados credores.
O que acontece agora?
O próximo passo é a formalização e o protocolo do pedido na Justiça.
A partir daí, começa uma nova etapa de negociação e implementação do plano de reestruturação.
O desafio será conseguir apoio suficiente dos credores para que o acordo seja efetivamente implementado.
A recuperação extrajudicial permite que a empresa negocie uma solução financeira com seus credores sem passar pelo mesmo modelo de recuperação judicial tradicional.
Para a Braskem, isso pode representar uma oportunidade de ganhar tempo e reorganizar seu passivo sem comprometer diretamente a operação industrial.
Mudança de controle adiciona outro elemento à reestruturação
O movimento financeiro acontece em paralelo a uma transformação na estrutura societária da empresa.
Segundo os dados mais recentes de relações com investidores, o Shine I FIP possui 50,11% das ações ordinárias da Braskem, enquanto a Petrobras detém 47,03%.
A mudança de controle e a nova estrutura de governança fazem parte do processo de transformação da companhia.
A própria Braskem afirmou que revisou suas prioridades estratégicas para o segundo semestre de 2026, com foco em resiliência, competitividade e geração de valor sustentável.
O desafio agora é transformar reestruturação em recuperação
A recuperação extrajudicial resolve uma parte do problema: a estrutura financeira.
Mas a empresa ainda precisa enfrentar a questão operacional.
O mercado petroquímico é altamente dependente de preços internacionais, custos de matérias-primas, demanda global e competitividade das plantas.
Por isso, uma eventual redução da dívida precisa vir acompanhada de medidas capazes de melhorar estruturalmente a geração de caixa.
A Braskem já aponta produtividade, competitividade, diversificação e sustentabilidade como pilares de sua estratégia. A companhia também pretende ampliar sua atuação em produtos renováveis e reciclados.
O caso Braskem é um alerta para grandes empresas brasileiras
O episódio também oferece uma lição para o mercado corporativo.
Uma empresa pode apresentar lucro contábil e EBITDA elevado e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades relacionadas à sua estrutura de capital.
O problema não está necessariamente apenas na capacidade de gerar lucro.
Está em quanto dinheiro efetivamente sobra para pagar dívida, financiar investimentos e manter a operação.
No caso da Braskem, a reestruturação será justamente um teste para descobrir se a melhoria operacional pode ser convertida em uma estrutura financeira sustentável.
A pergunta agora é outra
A Braskem conseguiu evitar, neste momento, uma ruptura operacional.
Mas começa uma etapa ainda mais importante:
a empresa conseguirá transformar uma dívida de US$ 10,9 bilhões em uma estrutura de capital capaz de sustentar seu próximo ciclo de crescimento?
A resposta dependerá do acordo com os credores, da evolução das margens petroquímicas, da geração de caixa e da capacidade da nova estrutura de governança de executar uma estratégia de longo prazo.
FAQ Santotech
A Braskem entrou em recuperação judicial?
Não. A companhia aprovou o pedido de recuperação extrajudicial, mecanismo diferente da recuperação judicial. O objetivo é renegociar determinadas obrigações financeiras com credores.
Qual é o tamanho da dívida da Braskem?
A empresa informou dívida bruta corporativa de US$ 10,4 bilhões em 30 de junho de 2026 e dívida líquida ajustada de aproximadamente US$ 9,5 bilhões. O pedido anunciado nesta segunda-feira envolve cerca de US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras.
A Braskem vai parar de operar?
Não. A empresa afirmou que a recuperação extrajudicial tem escopo financeiro e não abrange suas obrigações com fornecedores, clientes e demais stakeholders.
A Braskem está dando prejuízo?
Não necessariamente. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou lucro líquido de US$ 664 milhões e EBITDA de US$ 1,043 bilhão. O problema central está relacionado à estrutura de capital e ao elevado endividamento.
O que aconteceu com a Braskem no México?
A Braskem Idesa entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos para implementar uma reestruturação. O acordo prevê reduzir sua dívida sênior de US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão.
FONTES:


