Fui a Pernambuco recentemente e encontrei numa padaria algo raro: uma obra de arte numa lata! Uma lata de queijo do reino com xilogravura de J.Borges. Um exemplo claro de economia criativa.
O grande lance da economia criativa é justamente reunir valores ao relacionar coisas que já existem e ocupam espaço ao longo da história de um território, ou seja, é transformar conhecimento, cultura e talento em valor econômico.
O caso da lata de queijo do reino com gravura de J.Borges é um exemplo muito prático e até didático para explicar economia criativa. Veja:
O queijo do reino já existia e é tradição nas festas natalinas do Nordeste, desde outrora comercializado em uma lata.
A xilogravura já existia e é desde os primórdios uma arte que conversa com a cultura nordestina.
A lata comemorativa foi a união de um produto industrial com a arte popular. “Um encontro de legados”. Genial.
O queijo do rei ganhou sotaque brasileiro
O queijo do reino, assim como tantas outras comidas, artes e tradições, veio para o Brasil trazido pela coroa de Portugal. Era o queijo Edam holandês, que após cruzar oceanos, ganhou no Brasil características próprias. Para suportar a viagem, vinha protegido por banha em uma lata, que com o tempo passou a fazer parte do produto. Aqui ele se firmou em uma versão adaptada, mais seca, de sabor mais acentuado e com uma casca de coloração mais escura.
Com maior produção em Minas, passou a ocupar um espaço particular na culinária nacional. Mas foi no Nordeste que esse queijo passou a fazer parte da história cultural culinária, como sinônimo de tradição nas cestas natalinas e nas festas de fim de ano.
Assim, um queijo de origem europeia ganhou sotaque e foi incorporado às tradições nordestinas.
O encontro de dois reinos
Poucas linguagens visuais estão tão ligadas ao imaginário nordestino quanto a xilogravura. Ela nasceu como técnica de reprodução e encontrou, no reino encantado dos cordéis, entre histórias que povoam o nosso imaginário, formas únicas de expressar a cultura popular nordestina.
É a arte que ajuda a dar forma e cores a um universo feito de histórias, bichos, paisagens, festas, crenças e costumes. Um universo que também encontrou na literatura e na poesia de nomes como Ariano Suassuna, Ciro Fernandes e Samico diferentes formas de expressão.
J. Borges se destacou no domínio desta técnica e conseguiu fazer o imaginário popular do Nordeste extrapolar fronteiras. Em sua obra, estão as paisagens, as aves, as festas, os amores, os personagens e o cotidiano da vida no interior. Sua xilogravura transformou esse repertório cultural em uma linguagem visual reconhecida no Brasil e no mundo.
Do outro lado, está a história do queijo, vindo de um reino distante e encontrando em terras nordestinas raízes para se firmar.
Este ano, a Jong, um dos laticínios mais tradicionais do país, uniu essas duas tradições nordestinas num produto, mas não um novo produto. A marca lançou uma edição limitada de latas do Queijo do Reino com xilogravuras de J. Borges, em parceria com o Memorial J.Borges. Foram 4 artes inspiradas no universo do grande mestre pernambucano, com cenas relacionadas a festas, cotidiano e cultura nordestina.
O resultado: economia criativa aplicada na prática. o encontro de dois símbolos culturais.
De um lado, um produto gastronômico que faz parte da mesa e das memórias afetivas de muitas famílias nordestinas. Do outro, uma linguagem artística que comunica a cultura nordestina para o Brasil e o mundo.
A própria Jong apresentou a iniciativa como um encontro de legados. Essa definição foi especialmente feliz e muito estratégica, porque uniu gastronomia, design, arte popular, memória e identidade territorial.
Essa capacidade de criar valor a partir de algo que não é simplesmente matéria-prima é uma das forças propulsoras da economia criativa. É ir além do produto para agregar experiência, com significado e identidade.
Pense comigo: O queijo é o produto. A lata, a experiência. E a xilogravura, o valor cultural.
Economia criativa assim… na lata
Como aplicar esse conceito de economia criativa a outros negócios?
Reúna na lata, na caixa, na música, no prato ou nas paredes, fatos históricos e elementos culturais que conectem, de fato, o seu produto ou serviço ao território ou à construção identitária de um lugar. Então saberes e símbolos deixam de ser apenas referências e passam a gerar valor.
Um empório pode reunir artesanato e gastronomia para presentes e brindes corporativos, como faz a Kassuá.
Um hotel pode incorporar no café da manhã produtos da gastronomia local; ou na decoração dos quartos, elementos do artesanato que se destaca na região, como fez o Tauá Resort em João Pessoa.
Um engenho pode contratar artistas locais para transformar os rótulos de suas cachaças em obras de arte colecionáveis, como faz o Engenho Nobre em Cruz do Espírito Santo.
Até uma pizzaria pode contar uma história dentro de uma narrativa cultural através de seus pratos, como faz a Fazenzza Pizzas Armoriais.
Em todos esses casos, os produtos já existem. A forma de agregar valor a eles através de histórias e conexões com a cultura e o território é o que os diferencia.
Esse é o papel da economia criativa: fazer com que um produto ou serviço deixe de ser apenas um produto e passe a ter uma história pra contar.


