O varejo brasileiro atravessa um período de forte pressão, marcado por juros elevados, aumento do endividamento das famílias, concorrência internacional e mudanças no ambiente regulatório. A avaliação é de Sergio Zimerman, presidente do Conselho do grupo Petz Cobasi, durante palestra sobre os desafios enfrentados pelo setor.
Na análise, o empresário apresenta uma visão crítica sobre o ambiente de negócios no país e aponta sete fatores que, em sua avaliação, estão reduzindo a competitividade do varejo formal e dificultando a atividade das empresas brasileiras.
Segundo Zimerman, o problema não está concentrado em um único indicador econômico. Seria resultado da combinação entre política monetária, tributação, comportamento do consumidor, plataformas digitais e insegurança regulatória.
1. Juros altos reduzem o dinheiro disponível para o consumo
Um dos primeiros pontos levantados por Zimerman é o nível elevado dos juros.
Na avaliação do empresário, a política de juros tem impacto direto sobre o varejo porque aumenta o custo do crédito e reduz a renda disponível das famílias para consumir.
Zimerman utiliza uma comparação empresarial para questionar a situação das contas públicas: segundo ele, o governo poderia ser analisado como uma empresa com EBITDA negativo, na qual uma parcela relevante dos recursos é comprometida com despesas financeiras.
Para o varejo, o efeito seria direto.
Quanto maior o custo financeiro, menor tende a ser a capacidade de consumo das famílias e maior a atratividade dos investimentos financeiros em relação à atividade produtiva, argumenta.
2. Endividamento e crédito consignado preocupam
Outro ponto destacado é o crescimento do endividamento das famílias.
Zimerman questiona o avanço do crédito consignado em um ambiente no qual, segundo ele, ainda existe baixa educação financeira.
Na visão apresentada pelo empresário, o acesso facilitado ao crédito pode criar uma situação na qual parte da renda futura do trabalhador já esteja comprometida antes mesmo de chegar ao consumo.
Ele também relaciona o problema ao mercado de trabalho formal.
Segundo sua análise, trabalhadores excessivamente endividados podem buscar alternativas para escapar de descontos e compromissos financeiros, criando distorções no mercado formal.
3. Tributação de importados gera competição desigual, diz empresário
A terceira crítica envolve a concorrência entre empresas brasileiras e plataformas internacionais.
Zimerman questiona o tratamento tributário aplicado às mercadorias importadas comercializadas por plataformas digitais, comparando-o com a carga suportada por empresas que produzem e vendem dentro do Brasil.
Na avaliação do executivo, uma diferença significativa de tributação pode criar assimetria competitiva.
O resultado, segundo ele, é um cenário no qual empresas que mantêm funcionários, lojas, estoques e operações formalizadas no país competem com vendedores internacionais que possuem estruturas de custo diferentes.
Para o empresário, essa dinâmica pode desestimular a produção nacional e pressionar ainda mais as margens do varejo brasileiro.
4. Bets retiram recursos do consumo tradicional
As plataformas de apostas esportivas também entram na análise.
Zimerman classifica a legislação brasileira relacionada às bets de forma bastante crítica e defende que o fenômeno deveria ser tratado também como uma questão de saúde pública e comportamento financeiro.
O argumento apresentado é que parte do dinheiro que anteriormente poderia ser direcionada ao consumo de produtos e serviços passa a ser destinada às apostas.
Na perspectiva do varejista, isso representa uma mudança na destinação da renda disponível das famílias.
O empresário também questiona os impactos tributários e sociais dessa transferência de recursos.
5. Marketplaces precisam ser responsabilizados, defende Zimerman
A expansão dos marketplaces criou uma nova forma de consumo, mas também trouxe desafios para a fiscalização.
Zimerman questiona o grau de responsabilidade das plataformas pelos produtos comercializados por terceiros.
Entre os problemas citados estão produtos sem nota fiscal, pirataria e mercadorias que não seguem as mesmas regras aplicadas às empresas formais.
Para o empresário, o modelo cria uma situação de competição desigual quando uma empresa tradicional precisa cumprir uma série de obrigações regulatórias enquanto determinados vendedores conseguem atuar em plataformas digitais com estruturas diferentes.
A discussão, portanto, vai além do comércio eletrônico.
Envolve responsabilidade das plataformas, fiscalização, tributação e proteção da concorrência.
6. Insegurança jurídica trabalhista é outro obstáculo
A legislação trabalhista aparece como o sexto ponto da análise.
Zimerman afirma que decisões judiciais e mudanças na interpretação das regras trabalhistas aumentam a insegurança para empresas que empregam formalmente.
O problema, segundo sua avaliação, não seria apenas o custo direto das obrigações trabalhistas, mas a dificuldade de prever quanto determinada relação de trabalho poderá custar para uma empresa ao longo do tempo.
Para o setor varejista, que possui grande quantidade de trabalhadores e operações distribuídas em diferentes localidades, essa previsibilidade é particularmente relevante.
7. Reforma tributária pode manter pressão sobre consumo
O último ponto apresentado por Zimerman é a nova reforma tributária.
O empresário demonstra preocupação com a possibilidade de o Brasil continuar concentrando uma parcela elevada da arrecadação sobre o consumo e o trabalho.
Em sua avaliação, a nova estrutura poderá resultar em um dos maiores níveis de IVA do mundo, mantendo uma característica que considera problemática no sistema brasileiro: tributar fortemente a atividade econômica e o consumo.
Para Zimerman, uma reforma capaz de aumentar a competitividade deveria atacar também a estrutura de gastos e buscar uma distribuição diferente da carga tributária.
O alerta para o varejo formal
A análise de Sergio Zimerman apresenta uma conclusão central: o varejo formal estaria sendo pressionado simultaneamente por fatores econômicos e regulatórios.
De um lado, empresas enfrentam juros elevados, consumidores endividados e menor capacidade de consumo.
De outro, precisam competir com importados, marketplaces e vendedores que, segundo o empresário, nem sempre estão submetidos às mesmas obrigações.
A consequência seria uma redução da margem de manobra das empresas formais.
O problema vai além do varejo
Embora a análise esteja concentrada no comércio, os sete fatores apresentados atingem uma discussão mais ampla sobre o ambiente empresarial brasileiro.
A combinação entre:
- juros;
- crédito;
- endividamento;
- tributação;
- importações;
- comércio eletrônico;
- apostas;
- legislação trabalhista;
- insegurança jurídica;
afeta diretamente decisões de investimento, contratação e expansão.
Para o empresário, o país precisa mudar a lógica atual e construir uma agenda econômica voltada para produtividade, competitividade e geração de prosperidade.
Zimerman defende mudança na agenda política
Ao final da palestra, Sergio Zimerman defende que os eleitores devem escolher representantes comprometidos com uma agenda de transformação econômica.
A proposta apresentada pelo empresário é mudar a lógica de arrecadação e criar condições para que empresas formais tenham maior capacidade de investir, contratar e competir.
A mensagem final é essencialmente empresarial: sem um ambiente mais previsível e competitivo, o varejo formal terá cada vez mais dificuldades para crescer e enfrentar concorrentes que operam sob estruturas diferentes.
As avaliações apresentadas por Zimerman são opiniões e interpretações do empresário sobre o cenário econômico e regulatório brasileiro, e não representam consenso sobre os efeitos de cada uma das medidas citadas.
nesta quarta feira (26/08) , teremos um podcast sobre o assunto com o Alexandre Moura da LIGHT INFOCON sobre este tema.
FAQ
Quais são os principais problemas apontados por Sergio Zimerman para o varejo?
O empresário destaca sete fatores: juros altos, crédito consignado e endividamento, tributação de importados, bets, marketplaces, questões trabalhistas e reforma tributária.
Por que os juros altos afetam o varejo?
Na avaliação de Zimerman, juros elevados aumentam o custo do crédito e reduzem a renda disponível das famílias para o consumo, além de favorecer aplicações financeiras em relação ao consumo e à atividade produtiva.
Qual é a crítica aos marketplaces?
O empresário questiona a responsabilização das plataformas por produtos comercializados por terceiros que, segundo ele, podem não cumprir exigências como emissão de nota fiscal e regras contra a pirataria.
O que Zimerman diz sobre as bets?
Ele considera que as apostas esportivas podem retirar recursos que anteriormente seriam destinados ao consumo e defende que o tema também seja tratado como questão de saúde pública.
Qual é a preocupação com a reforma tributária?
Zimerman questiona a manutenção de uma elevada tributação sobre o consumo e afirma que o novo sistema poderá deixar o Brasil com um IVA entre os mais elevados do mundo.
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