O que faz um país ser realmente inovador? Ter tecnologia de ponta, grandes universidades e infraestrutura moderna é suficiente?
Para Éderson Dé Manoel, CEO e cofundador do Grupo Atalhos Digitais, a resposta é não.
Em entrevista a Anthony Brito, no Santotech Podcast, o especialista em ecossistemas de inovação defendeu que o principal diferencial dos países mais inovadores está na capacidade de criar uma mentalidade de colaboração entre governo, universidades, empresas e sociedade.
A discussão fez parte do episódio “O segredo dos países inovadores que o Brasil não entendeu?”, no qual Éderson compartilhou experiências observadas em diferentes ambientes internacionais de inovação.
O especialista afirma ter visitado 112 ambientes de inovação ao redor do mundo, segundo o perfil oficial do Grupo Atalhos Digitais. Em 2026, realizou uma expedição por sete países europeus, passando por 29 ambientes de inovação em cidades como Lisboa, Porto, Aveiro, Dublin, Belfast, Edimburgo, Londres, Málaga e Casablanca.
O problema brasileiro não seria apenas tecnológico
Durante a entrevista, Éderson questiona uma percepção comum no Brasil: a ideia de que inovação depende principalmente da existência de laboratórios, equipamentos, parques tecnológicos ou grandes investimentos financeiros.
Para ele, existe um componente anterior a tudo isso: a mentalidade do ecossistema.
Na visão apresentada no podcast, um ambiente inovador precisa conectar diferentes atores e fazer com que eles compartilhem objetivos, conhecimento, recursos e oportunidades.
É justamente essa integração que o especialista afirma ter encontrado em lugares como Edimburgo, na Escócia, e Aveiro e Porto, em Portugal.
A experiência internacional de Éderson também aparece em seus registros públicos da expedição europeia realizada em 2026, na qual documentou visitas a hubs, universidades, comunidades e outros ambientes ligados à inovação.
Governo tem papel decisivo na inovação
Um dos pontos mais contundentes da conversa foi o papel do Estado.
Para Éderson, não existe um país verdadeiramente inovador sem participação significativa do governo.
A afirmação não significa, necessariamente, que o Estado deva controlar a inovação. O argumento é que governos precisam criar condições para que empresas, universidades e empreendedores possam desenvolver tecnologia e competir globalmente.
Nesse contexto, o especialista critica a burocracia brasileira e defende uma visão de longo prazo voltada para a soberania tecnológica.
A discussão ganha relevância diante da velocidade com que inteligência artificial, automação, robótica e computação avançada estão alterando setores inteiros da economia.
Para o especialista, depender excessivamente de tecnologias desenvolvidas em outros países pode colocar o Brasil em uma posição vulnerável diante da nova economia digital.
Educação ainda prepara profissionais para um mundo que está desaparecendo
Outro ponto central da entrevista foi a educação.
Éderson fez uma crítica ao modelo tradicional de formação profissional brasileiro, argumentando que parte do sistema ainda prepara pessoas para funções repetitivas em um momento em que a tecnologia está justamente automatizando esse tipo de atividade.
A transformação provocada pela inteligência artificial aumenta a pressão para que escolas e universidades desenvolvam competências relacionadas a criatividade, resolução de problemas, empreendedorismo, tecnologia e capacidade de adaptação.
A questão, portanto, não seria apenas formar mais profissionais.
Seria formar pessoas capazes de criar soluções, empreender e participar de mercados globais.
Empreendedorismo precisa ir além da busca por subsídios
A conversa também abordou um comportamento que, segundo Éderson, limita o desenvolvimento de determinados ecossistemas brasileiros: empreendedores que concentram esforços na busca por recursos públicos e subsídios, mas não necessariamente na construção de empresas escaláveis.
Na visão apresentada no podcast, um ecossistema maduro deveria estimular negócios capazes de gerar impacto econômico, tecnológico e social em escala.
O desafio passa por mudar a pergunta:
“Quanto de incentivo consigo obter?”
para:
“Que problema global consigo resolver?”
Essa mudança de mentalidade poderia ajudar empresas brasileiras a pensar desde o início em mercados maiores, exportação de tecnologia e expansão internacional.
Brasil corre risco de perder a corrida da inteligência artificial
A inteligência artificial foi outro ponto de preocupação levantado durante a entrevista.
Éderson avalia que o Brasil corre o risco de ficar para trás na nova economia baseada em IA caso não consiga acelerar a formação de talentos, a criação de empresas de tecnologia e a integração entre governo, academia e iniciativa privada.
O cenário internacional torna essa discussão ainda mais urgente.
Países e regiões estão disputando investimentos, talentos, infraestrutura computacional e empresas capazes de desenvolver aplicações de inteligência artificial.
Nesse contexto, não basta consumir IA.
A questão estratégica é saber quem desenvolverá as tecnologias, quem controlará os dados, quem formará os profissionais e quem ficará com o valor econômico gerado por essa nova indústria.
Edimburgo e a tecnologia voltada para o ser humano
Entre os exemplos apresentados por Éderson está Edimburgo.
O especialista cita iniciativas relacionadas à integração entre universidade, tecnologia, empreendedorismo e comunidade, além de soluções de robótica assistiva voltadas ao apoio humano.
A ideia apresentada é significativa: inovação não precisa necessariamente significar substituir pessoas.
Ela também pode significar aumentar a capacidade humana.
Robótica, inteligência artificial e automação podem ser utilizadas para ampliar autonomia, produtividade, acessibilidade e qualidade de vida.
Esse conceito se aproxima de uma visão de inovação centrada no ser humano, na qual a tecnologia funciona como ferramenta para resolver problemas concretos da sociedade.
O que o Brasil poderia aprender com Portugal
Portugal também aparece como referência na conversa.
Aveiro e Porto são citados como exemplos de localidades nas quais diferentes atores do ecossistema trabalham de maneira mais integrada.
A experiência europeia de Éderson ajuda a colocar uma questão para o Brasil: por que determinados ecossistemas conseguem transformar conhecimento acadêmico em empresas, produtos e oportunidades com maior velocidade?
Não se trata simplesmente de copiar uma cidade ou importar uma política pública.
O desafio seria compreender os mecanismos que fazem o ecossistema funcionar e adaptá-los à realidade brasileira.
Inovação é uma estratégia de país
A principal mensagem do episódio é que inovação não pode ser tratada apenas como um projeto isolado de uma secretaria de governo, universidade, empresa ou startup.
Ela precisa fazer parte de uma estratégia nacional.
Para isso, diferentes áreas precisam trabalhar juntas:
- Governo: políticas públicas, infraestrutura e ambiente regulatório;
- Universidades: pesquisa, conhecimento e formação de talentos;
- Empresas: investimento, produtos e escala;
- Startups: velocidade e experimentação;
- Investidores: capital para crescimento;
- Educação: formação de pessoas preparadas para o novo mercado;
- Sociedade: adoção e utilização das novas tecnologias.
É justamente essa conexão que, segundo Éderson, diferencia ecossistemas mais maduros.
O desafio brasileiro diante da nova economia
O Brasil possui universidades, pesquisadores, empreendedores, startups e um mercado consumidor de grande escala.
O desafio está em transformar esses ativos em vantagem competitiva global.
A inteligência artificial pode ampliar ainda mais essa diferença.
Países que conseguirem conectar educação, capital, pesquisa, empresas e governo terão maior capacidade de criar tecnologias e empresas capazes de competir internacionalmente.
O episódio do Santotech Podcast coloca, portanto, uma questão que vai além da tecnologia:
O Brasil quer apenas consumir as inovações criadas no mundo ou pretende participar da construção do próximo ciclo tecnológico?
Para Éderson Dé Manoel, a resposta depende menos de construir mais estruturas e mais de mudar a forma como o país pensa, educa, empreende e articula seus ecossistemas.
Sobre Éderson Dé Manoel
Éderson Dé Manoel é CEO e cofundador do Grupo Atalhos Digitais, além de atuar em iniciativas relacionadas a tecnologia, inteligência artificial, produtos digitais e ecossistemas de inovação. O Grupo Atalhos Digitais informa que Éderson possui experiência internacional e já visitou 112 ambientes de inovação.
Sobre o episódio
O episódio foi apresentado por Anthony Brito, no Santotech Podcast, e debate os fatores que explicam o desempenho de países e cidades inovadoras e o que o Brasil poderia aprender com experiências internacionais.
Assista ao episódio completo no Santotech Podcast.

