Empresas investem em tecnologia, mas ainda falham em maturidade digital
Cloud computing, inteligência artificial, automação, análise de dados, cibersegurança e inúmeras plataformas corporativas passaram a fazer parte do planejamento de praticamente qualquer empresa que pretende continuar competitiva.
Nunca tivemos acesso a tantas tecnologias capazes de aumentar produtividade, automatizar processos e melhorar a experiência dos clientes.
Mesmo assim, existe uma contradição cada vez mais evidente: comprar tecnologia ficou relativamente fácil. Transformar tecnologia em resultado continua sendo difícil.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores diferenças entre modernização tecnológica e maturidade digital.
Uma empresa pode utilizar serviços em nuvem, ferramentas de inteligência artificial, sistemas avançados de CRM e plataformas de análise de dados e, ainda assim, continuar operando de forma fragmentada.
Essa discussão foi levantada por Alex Camargo, Head de Observabilidade da Delfia, em artigo publicado pela Revista Fator Brasil em 15 de agosto de 2026. O autor destaca que a maturidade digital está muito mais relacionada à capacidade de conectar estratégia, processos e informações do que simplesmente à quantidade de tecnologias adotadas por uma organização.
Ter tecnologia não significa saber utilizá-la
Existe uma tendência natural de associar transformação digital à compra de novas ferramentas.
A empresa contrata um novo ERP, implementa um CRM, migra servidores para a nuvem, adota ferramentas de inteligência artificial e inicia projetos de automação.
No papel, parece uma organização extremamente moderna.
Mas o que acontece quando marketing trabalha com uma informação, vendas utiliza outra, atendimento possui uma terceira visão do cliente e a área de tecnologia precisa gastar grande parte do tempo apenas mantendo todos esses sistemas funcionando?
Temos tecnologia.
O que não temos necessariamente é transformação.
O artigo de Alex Camargo aponta justamente essa desconexão como um dos obstáculos encontrados por empresas que modernizaram sua infraestrutura, mas ainda possuem departamentos funcionando praticamente como ilhas independentes.
E isso gera um efeito interessante.
Quanto maior a quantidade de ferramentas sem integração, maior também pode se tornar a complexidade operacional da empresa.
Em outras palavras, adicionar tecnologia sobre processos ruins não necessariamente resolve o problema.
Em alguns casos, apenas digitaliza o problema que já existia.
Dados existem. O problema é o que fazemos com eles
Outro ponto fundamental dessa discussão envolve dados.
Hoje, empresas conseguem registrar praticamente cada etapa do relacionamento com seus clientes.
Sabemos quais páginas alguém visitou, quais campanhas geraram interesse, quais produtos foram pesquisados, quais propostas foram enviadas, quais chamados foram abertos e inúmeras outras informações.
O problema deixou de ser simplesmente obter dados.
O problema passou a ser transformar dados em decisões.
Uma organização pode possuir milhões de registros e ainda assim ter dificuldade para responder perguntas básicas sobre seus próprios clientes.
Isso acontece quando informações permanecem espalhadas entre diferentes sistemas ou quando cada departamento acompanha métricas completamente diferentes.
Marketing pode considerar uma campanha excelente porque gerou milhares de leads.
Vendas pode considerar essa mesma campanha ruim porque poucos desses contatos tinham intenção real de compra.
Financeiro pode enxergar outro problema porque os clientes conquistados tiveram baixa rentabilidade.
Todos possuem dados.
Mas ninguém necessariamente possui a visão completa.
É exatamente por isso que maturidade digital não pode ser tratada exclusivamente como responsabilidade do departamento de tecnologia.
O desafio é ainda maior no mercado B2B
Essa fragmentação se torna especialmente problemática quando falamos de empresas que trabalham com vendas B2B.
Uma decisão de compra corporativa raramente acontece depois de uma única interação.
O potencial cliente pode conhecer uma empresa através de uma pesquisa, consumir conteúdos durante semanas, conversar com um representante comercial, participar de uma demonstração e somente depois tomar uma decisão.
Ao longo desse processo existem diferentes pontos de contato.
Marketing acompanha parte dessa jornada.
Vendas acompanha outra.
Atendimento pode participar posteriormente.
A tecnologia conecta — ou deveria conectar — tudo isso.
Quando essas áreas não compartilham informações, cada uma conhece apenas uma pequena parte do cliente.
O artigo publicado pela Revista Fator Brasil destaca justamente que marketing, vendas e tecnologia precisam atuar de maneira mais integrada no ambiente B2B, compartilhando responsabilidade tanto pela experiência do cliente quanto pelos resultados gerados pelo negócio.
Esse talvez seja um dos melhores exemplos para entender maturidade digital.
Não é simplesmente implementar um CRM.
É fazer com que as informações existentes nesse CRM realmente influenciem as decisões realizadas pela organização.
Inteligência artificial também não resolve desorganização
A atual corrida pela inteligência artificial torna essa discussão ainda mais importante.
Muitas empresas estão tentando introduzir IA em praticamente todos os processos possíveis.
Só que inteligência artificial possui uma característica muito simples que frequentemente ignoramos: sua utilidade depende bastante da qualidade das informações e dos processos aos quais ela possui acesso.
Se os dados estão desorganizados, fragmentados ou desatualizados, adicionar inteligência artificial pode simplesmente permitir que a empresa processe mais rapidamente informações ruins.
Um chatbot não resolve uma base de conhecimento desatualizada.
Uma IA de vendas não resolve um CRM mal alimentado.
Um sistema de automação não resolve um processo que nunca foi adequadamente definido.
Antes de perguntar onde inserir inteligência artificial, talvez algumas empresas precisem responder uma pergunta muito menos interessante, porém mais importante:
nossos processos atuais realmente funcionam?
Maturidade digital começa antes da tecnologia
Existe uma diferença importante entre uma empresa tecnologicamente equipada e uma empresa digitalmente madura.
A primeira possui ferramentas.
A segunda consegue utilizá-las de maneira coordenada.
Uma organização madura consegue fazer com que dados circulem entre departamentos, cria métricas compartilhadas e estabelece processos suficientemente claros para que tecnologia realmente aumente sua capacidade operacional.
Isso exige governança.
Exige integração.
Exige pessoas.
E principalmente exige estratégia.
Alex Camargo defende no artigo que maturidade digital deve ser encarada como uma agenda de negócio contínua, e não como um projeto com começo e fim.
Essa diferença de interpretação é enorme.
Quando transformação digital é tratada como projeto, existe uma tendência de pensar que ela será concluída depois da implantação de determinado sistema.
Instalamos a plataforma.
Treinamos a equipe.
Projeto concluído.
Só que tecnologia continua mudando.
Clientes continuam mudando.
Processos continuam mudando.
A própria empresa continua mudando.
Maturidade digital, portanto, não possui exatamente uma linha de chegada.
O retorno do investimento precisa aparecer no negócio
Existe ainda uma questão que considero especialmente importante: retorno.
Empresas podem gastar valores enormes em tecnologia sem conseguir demonstrar exatamente qual problema foi resolvido.
Isso acontece porque projetos tecnológicos algumas vezes começam pela própria ferramenta.
“Precisamos usar inteligência artificial.”
“Precisamos ir para a nuvem.”
“Precisamos implementar automação.”
Essas frases parecem estratégicas, mas estão incompletas.
Precisamos de inteligência artificial para fazer o quê?
Qual gargalo será eliminado?
Qual indicador será melhorado?
Quanto tempo esperamos economizar?
Qual impacto financeiro esperamos obter?
Qual experiência do cliente será aprimorada?
Sem respostas para essas perguntas, existe o risco de transformar inovação em aquisição de software.
O artigo cita dados da McKinsey segundo os quais organizações com maior maturidade digital podem apresentar crescimento de EBITDA significativamente superior ao de empresas menos maduras. O ponto central apresentado pelo autor não é simplesmente possuir mais tecnologia, mas conseguir integrar estratégia, processos e dados para gerar valor.
Talvez sua empresa já tenha tecnologia suficiente
Essa é provavelmente a parte mais desconfortável de toda essa discussão.
O próximo grande salto digital de uma empresa talvez não dependa da compra de mais uma ferramenta.
Talvez dependa de fazer funcionar corretamente aquilo que ela já possui.
Antes de contratar outro sistema, algumas perguntas deveriam ser feitas:
Os sistemas atuais conversam entre si?
As informações estão atualizadas?
As áreas compartilham objetivos?
Existe uma visão única sobre clientes e operações?
Os indicadores realmente ajudam a tomar decisões?
Os processos foram estruturados antes de serem automatizados?
As tecnologias contratadas estão sendo plenamente utilizadas?
São perguntas menos atraentes do que discutir o lançamento da próxima plataforma de inteligência artificial.
Mas provavelmente geram resultados muito maiores.
No fim, acredito que esse seja o principal ponto dessa discussão.
Tecnologia é infraestrutura. Maturidade digital é capacidade organizacional.
A primeira pode ser comprada.
A segunda precisa ser construída.
E em um mercado no qual praticamente qualquer empresa consegue contratar as mesmas plataformas, acessar os mesmos serviços em nuvem e utilizar os mesmos modelos de inteligência artificial, possuir tecnologia deixa de ser uma vantagem competitiva por si só.
A vantagem passa a estar em como cada empresa conecta pessoas, dados, processos e tecnologia para tomar decisões melhores e executar mais rapidamente.
Talvez, portanto, a pergunta mais importante não seja qual será a próxima tecnologia adotada pela empresa.
A pergunta deveria ser outra:
Estamos realmente utilizando todo o potencial da tecnologia que já pagamos para ter?
Fonte: artigo “Por que tantas empresas avançam em tecnologia, mas não em maturidade digital”, de Alex Camargo, Head de Observabilidade da Delfia, publicado pela Revista Fator Brasil em 15 de agosto de 2026.

