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    Muito além da festa

    Colunistas 16/06/2026Renata AlmeidaPor Renata Almeida4 minutos de leitura
    Renata Almeida fundadora da kassua e colunista santotech
    renata almeida fundadora da kassua e colunista santotech

    Olha pro céu, meu amor… vê como ele está lindo! Foi num dia desses, olhando pro céu cheio de bandeirolas coloridas, que me peguei pensando no quanto uma festa junina tem a nos ensinar. 

    O som da sanfona atravessava o ambiente. No coreto, um trio de forró pé-de-serra embalava os casais e a criançada que corria pela ruazinha de pedras. O cheiro de milho assado e canjica se misturava ao burburinho das conversas quando, de repente, fui arrastada pelo braço para juntar-me a uma grande roda, onde turistas e  locais davam-se as mãos, arrastando o pé no ritmo de uma quadrilha improvisada.

    Naquela alegria de cores e sorrisos, comecei a enxergar algo muito além da festa.

    Vi costureiras que passaram semanas confeccionando figurinos. Vi agricultores cujo trabalho chegava às mesas em forma de pamonhas, canjicas, bolos e doces. Vi músicos, artesãos, cozinheiros, produtores culturais, comerciantes e pequenos empreendedores encontrando naquele espaço uma oportunidade de trabalho e renda.

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    De repente, aquele sítio colorido deixou de ser apenas um lugar de celebração e passou a ser um retrato vivo da economia criativa em pleno fulgor.

    Enquanto muitas regiões do mundo investem milhões para criar atrações capazes de atrair visitantes e movimentar economias, o Nordeste possui atrativos naturais e culturais extraordinários e um patrimônio cultural vivo, construído ao longo de gerações. As festas juninas são um desses patrimônios culturais, inclusive reconhecidos oficialmente como manifestação da cultura nacional.

    A riqueza associada às festas populares também pode ser medida em números. Somente o Maior São João do Mundo, realizado em Campina Grande, deve movimentar mais de R$ 800 milhões na economia local em 2026. Na edição de 2025, o evento recebeu mais de 3 milhões de visitantes e movimentou cerca de R$ 740 milhões na cidade.

    Quando vemos números como esses, pensamos na festa como um grande produto turístico. Mas vai além disso. 

    Pense, por exemplo, em um grande festival internacional de música.

    Ele pode reunir milhares de pessoas, atrair patrocinadores e gerar impacto econômico relevante. Mas, em muitos casos, esse mesmo festival pode ser itinerante, ou seja, pode acontecer em qualquer cidade do mundo sem perder sua essência.

    Com uma festa junina nordestina acontece o contrário. Ela não pode ser simplesmente transportada para outro lugar.

    O forró, as quadrilhas, as comidas à base de milho, os saberes populares, a decoração, as expressões linguísticas e as memórias afetivas que cercam a festa nasceram aqui. Fazem parte do nosso território e da nossa identidade enquanto povo.

    É essa autenticidade que torna a cultura um dos ativos mais valiosos da economia contemporânea É o resultado de uma construção coletiva que atravessa gerações que diferencia as manifestações culturais de um produto globalizado e padronizado.

    Produtos são copiados, assim como as tecnologias que se disseminam rapidamente, ou modelos de negócio se replicam em questão de meses. Mas identidade cultural não.

    É por isso que as pessoas têm buscado cada vez mais experiências autênticas, capazes de contar histórias e criar conexões genuínas com os lugares que visitam.

    Quando observamos uma festa junina por essa perspectiva, percebemos que ela representa muito mais do que entretenimento ou um produto turístico. Ela preserva patrimônio cultural, fortalece comunidades, movimenta cadeias produtivas locais e cria oportunidades econômicas.

    Além disso, festas juninas — assim como tantas outras manifestações culturais nordestinas — projetam a identidade da região para além de suas fronteiras e abrem caminhos para novas oportunidades de desenvolvimento.

    Enquanto esses pensamentos me invadiam, eu passava abaixada sob o túnel da quadrilha, de braços dados com uma senhora alegre de chapéu de palha. Ao som de um bom xote, aquela cena me mostrava com clareza a riqueza daquela festa: cultura, criatividade e território encontravam-se ali, diante dos meus olhos. Nosso São João não é apenas uma festa junina, é a perpetuação de nossos saberes, é a continuidade de nossa história. É tradição atravessando gerações. 

    Se, em sua essência, a economia criativa acontece quando transformamos conhecimento, cultura, talento e identidade em valor econômico, poucos exemplos traduzem esse conceito de forma tão clara quanto uma festa junina no interior do Nordeste. Talvez seja por isso que, quando estou num “arraiá”, já não vejo apenas uma festa. Vejo cultura transformando identidade em desenvolvimento.

    cultura nordestina desenvolvimento regional economia criativa São João turismo cultural
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    Renata Almeida
    • Website

    Renata Almeida é engenheira e atualmente empreendedora da economia criativa. Fundadora da Kassuá, atua na valorização da cultura local como motor de desenvolvimento econômico e social. Escreve sobre economia criativa, inovação e sustentabilidade.

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